Autorizar-se analista

MARIA ODETE • 31 de agosto de 2025

Autorizar-se analista é autorizar-se a si mesmo a apostar no inconsciente

A formulação lacaniana “autorizar-se por si mesmo” revela o caráter ético e singular da formação do analista. Esse percurso não se pauta pela certificação institucional ou pelo reconhecimento externo, mas por um ato subjetivo que envolve a aposta radical no inconsciente. Ser analista, nesse sentido, não é uma posição conferida pelo Outro, mas uma consequência de uma travessia: a do próprio sujeito em análise.

A autorização para ocupar o lugar de analista nasce, portanto, de uma aposta no saber inconsciente — um saber que não se possui, mas que se manifesta nos lapsos, nos atos falhos e nas formações do desejo. Esse movimento implica reconhecer que o inconsciente não é um depósito de certezas ou verdades prontas, mas um campo atravessado pela falta, pelo equívoco e pela lógica do desejo.

Autorizar-se como analista não significa ocupar o lugar de um mestre ou de um detentor de saber. Ao contrário, é colocar-se no ponto de causa, sustentando o vazio que estrutura o sujeito e permitindo que o analisando articule sua própria relação com o inconsciente. É um ato ético, no sentido de uma escolha que se funda no singular, no irredutível do próprio desejo e na experiência vivida em análise.

A aposta no inconsciente é, assim, uma aposta na possibilidade de transformação, tanto do analisando quanto do próprio analista. Trata-se de sustentar o lugar de operador de um discurso que não promete completude, mas que possibilita a inscrição de algo novo: o desejo do sujeito em sua singularidade. Essa aposta, que Lacan articula como “fé no inconsciente”, é o que permite ao analista ocupar seu lugar de forma legítima, não por uma autorização externa, mas por uma responsabilidade ética que se funda na sua própria travessia.

Ao autorizar-se analista, o sujeito assume a condição de operar naquilo que Lacan chamou de “ato analítico”: um gesto que sustenta o campo do desejo, do equívoco e do inconsciente como motor da subjetividade. É um ato que, mais do que se submeter a uma norma, implica criar a partir da falta, apostando na potência transformadora do desejo e na experiência singular do inconsciente.


Maria Odete G Galvão Psicóloga é Psicanalista Especialista em Psicanálise e Linguagem Mestre em Semiótica.

Por MARIA ODETE 31 de agosto de 2025
Um dispositivo analítico essencial à passagem de analisando à analista